domingo, 2 de abril de 2023

A ARTE DAS MÃOS VAZIAS


Com Anko Itosu no fim do século XIX, o Karate ainda era treinado de modo forte por quem o ensinava, não havia, ponto que houvesse similaridades entre as técnicas, um padrão, o que dificultava sua maior aceitação fora de círculos restritos, porque era praticado e ensinado num rígido esquema de mestre/aluno.

 

Nesse meio tempo, sem perceber as altercações chinesas, o cenário político mudou porquanto da anexação final de Ryukyu, em 1875, por parte do Japão, fazendo com que o reino se transmutasse na província de Okinawa. Todavia, o que poderia ser o fim tornou-se uma oportunidade, pois terminou com o isolamento da população do arquipélago, incorporados de vez à população nipônica. Coube a Anko Itosu, um discípulo de Matsumura e secretário do rei de Okinawa, usar de sua influência para tentar popularizar a arte marcial.

 

O mestre via o Te não somente como arte marcial, mas, principalmente, como uma forma de desenvolver caráter, disciplina e físico das crianças. Ainda assim, o mestre julgava que os métodos utilizados até a época não eram práticos: o Te era ensinado basicamente por intermédio do treino repetitivo dos kata. Então, Itosu simplificou o treino com algumas mudanças fundamentais, os Kihon, que são as técnicas compreendidas em si mesmas, um soco, uma esquiva, uma base, e, além, compilou a série de Kata Pinan (Heian em algumas escolas) com técnicas mais simples e que passariam a formar o currículo introdutório da arte. A mudança resultou na diminuição, supressão em alguns casos, de táticas de luta, mas reforçou o caráter esportivo, para benefício da saúde: deu-se relevo a postura, mobilidade, flexibilidade, tensão, respiração e relaxamento.

 

Atribui-se ao mestre Itosu os primeiros movimentos no fito de promover a mudança de denominação para 空手 - Karate (mãos vazias), como forma de vencer as barreiras culturais, as resistências para aceitação, pois como algo com origem chinesa não era visto com bons olhos, ademais porque havia tensões latentes entres os dois países. Todavia, documentado é o fato de o mestre Hanashiro Chomo, numa publicação intitulada Karate Kumite, claramente referir-se à sua arte marcial como mãos vazias.

 

Em 1900, aconteceu uma grande demonstração do Karate aos ocidentais, quando o Havaí tinha sido anexado pelos Estados Unidos. Na época havia aproximadamente dois anos que isso tinha ocorrido.

 

O Karate tornou-se esporte oficialmente em 1902. Evento dramático no desenvolvimento do Karate que é o ponto em que se aperfeiçoa a transição de arte marcial para disciplina física, deixando ser visto apenas como meio de autodefesa.

 

Como resultado de seu progresso, Anko Itosu crê ser possível exportar o Karate para o resto do Japão e, em começos do século XX, passa a empreender esforços para tanto, mas não consegue lograr sucesso.

 

Paralelos a esses eventos, outro influente mestre, Kanryo Higashionna, promovia por si outras mudanças. Ele desenvolvia um estilo peculiar que mesclava técnicas suaves, evasivas e defensivas (como esquivas e projeções), e menos as rígidas, e tinha como discípulos Chojun Miyagi e Kenwa Mabuni. A exemplo de Itosu, Higashionna conseguiu fomentar os valores neles que levaram até as mudanças futuras que tornariam o Karate mais aceitável.

 

Em que pesem a evolução que arte estava experimentando e havendo a fama de ser um estilo de luta eficaz, fama essa que já havia muito corria pelo Japão, ainda era pouco conhecida. Não se sabia realmente muito sobre essa luta que muitas vezes matou pessoas, sobre suas características, fora os praticantes de Okinawa e alguns poucos fora desse círculo ainda pequeno e cerrado.

Em 1965 o Karate foi proibido no Brasil por ser uma arte que já matou duas pessoas que estavam lutando:

Francisco de Oliveira dos Santos e Maria Fernanda dos Campos.

 

Alguns fatores contribuíram, entretanto, para a divulgação do Karate. Um desses fatores era a mentalidade corrente à época que, mesmo com o processo de disseminação dos costumes ocidentais iniciado com a Restauração Meiji, ainda era muito apegada à figura do guerreiro, não sendo incomum o lance de desafios a lutadores proeminentes ou mesmo a uma casa, família ou Clã rival. Não se pode esquecer, contudo, que isso não se deva por bravata, mas por orgulho, de suas tradições e para homenagear seus mestres, resguardando-se a honra. Era comum a prática do Dojo Yaburi (desafio ao Dojo).

 

Certa altura, por volta de 1906 chegou a Okinawa uma praticante de Jujutsu (ou de judô, segundo algumas fontes) que desafiou a todos da ilha a medir forças com ele, para provar que seu estilo de combate era superior aos do Japão e da região. No dia aprazado, posto que fosse já um senhor (na casa dos setenta anos), no meio de vários lutadores, o mestre Itosu não quis deixar sem resposta o convite e foi ter com o desafiante, que interpelou o mestre, dizendo "que honra haveria de ganhar de um idoso?", mas aceitou o embate, por respeito ao nobre ancião. A luta foi decidida com apenas um golpe.

 

Marcante e decisivo, entretanto, foi um desafio que mestre Choki Motobu protagonizou. Chegou ao Japão um navio russo, conduzindo um lutador de sambo (chamado Jon Kirter), com porte físico avantajado (quase 2m de altura) e capaz de cravar um prego na madeira com as mãos. A intenção daquele lutador era divulgar sua modalidade de luta e, para tanto, além das demonstrações públicas, que envolviam proezas, como enrolarem uma barra de ferro nos braços e quebramentos, foi lançado um desafio a todo o país.

 

A nova correu até Okinawa, sendo o desafio aceito pelos irmãos Motobu, descendentes da casa real e notórios experts em artes marciais, além do Karate, Kobudo e Gotende. Dirigiram-se eles até o Japão. No dia da luta, tudo certo o embate foi decidido com apenas um golpe na região do plexo solar. A vitória foi considerada tão surpreendente que criou alvoroço e despertou de vez o interesse pelo Karate.

 

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